Crônica do Véu — Arco I
Capítulo 1
Michigan crescia sobre solo antigo.
Hemrys, o Fugitivo do Limbo
A convivência entre o oculto e os homens parecia estável. Mas estabilidade demais costuma ser apenas o nome elegante do erro antes da queda.
Em 1880, os homens de Michigan continuavam a viver como se o mundo tivesse finalmente encontrado seus donos. Davam nome à terra, riscando mapas e fronteiras com a confiança breve de criaturas que sempre confundiram presença com posse. Alguns entre nós olhavam para isso com desprezo mal disfarçado. Outros apenas suportavam a visão com o cansaço de quem já viu impérios inteiros nascerem convencidos da própria grandeza antes de apodrecerem do mesmo modo. Eles andavam sobre solo antigo com a insolência de quem jamais foi obrigado a reconhecer diante de quem deveriam se curvar.
Nós permanecíamos entre eles como se pertencêssemos à mesma ordem de coisas, embora nunca tenhamos pertencido. Ocupávamos os espaços que julgavam seguros, os cargos que tomavam como respeitáveis, os nomes que lhes pareciam comuns o bastante para não despertar suspeita. Uns se deixavam ver mais de perto, misturados aos negócios, às disputas e aos interesses humanos. Outros preferiam as margens, onde a floresta ainda respirava com menos interferência e a terra ainda guardava alguma memória do que existia antes deles. Não era aceitação. Nunca foi. Era permanência.
Por algum tempo, isso bastou. Havia um tipo de estabilidade possível naquela convivência torta, feita de silêncio, cálculo e costume. Os homens seguiam crentes na própria soberania, e muitos dos nossos passaram a atravessar os anos como se essa ilusão lhes servisse bem o bastante para ser mantida sem esforço maior. Michigan crescia, e junto com esse crescimento vinha aquilo que sempre favoreceu o oculto. Ruído, movimento, excesso de novidades, gente demais olhando para a frente e de menos olhando ao redor. Parecia suficiente. Parecia sólido. E foi justamente por isso que começou a ruir.
A primeira rachadura veio quando uma bruxa imprudente, ao tentar violar o véu entre vivos e mortos, abriu passagem para algo que não pertencia a este mundo: uma entidade denominada Limbo. Por um breve tempo, sua presença bastou para deformar o que havia de mais útil em nossa permanência. Não foi apenas o aparecimento de algo estranho, mas a sujeira deixada por sua travessia. Havia desajuste demais em sua existência, uma espécie de mal que não se encerrava com o fechamento da passagem por onde viera. Quando essa abertura foi selada, o estrago já respirava por conta própria. O que Limbo trouxe consigo permaneceu misturado ao ambiente, aos rastros, aos erros e à atenção que começava a se voltar para lugares que deveriam continuar ignorados.
E os erros vieram, como sempre vêm quando alguns passam tempo demais acreditando na própria intocabilidade. Houve excessos em Michigan. Houve descuidos mal escondidos, movimentos fora de hora, arrogâncias pequenas que, isoladamente, talvez não significassem nada, mas juntas começaram a formar desenho. O tipo de desenho que os homens comuns não saberiam ler e que, ainda assim, os faria sentir que algo estava fora do lugar. E bastava isso. Bastava o desconforto certo, a coincidência insistente, a impressão errada repetida vezes suficientes para que a superfície da tranquilidade começasse a se romper.
Marcas
Sinais do Capítulo
A soberania ilusória dos homens
A permanência dos antigos entre os humanos
O crescimento de Michigan
A contaminação deixada pelo Limbo
Os excessos que começaram a formar um desenho
A primeira rachadura no silêncio
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