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Arquivo Primordial

Lore Sobrenatural Prólogo

O mundo nunca pertenceu aos homens...

Ele era nosso por direito de existência e essência. Antes que o primeiro rei humano gravasse seu nome em uma pedra, as Quatro Irmãs já haviam moldado o curso dos ventos e o segredo das marés. Nós caminhávamos sob o sol sem a necessidade de máscaras ou sombras, pois éramos a própria lei que regia a terra selvagem. Não havia o conceito de ocultamento quando a nossa luz era o único guia que as tribos perdidas possuíam para sobreviver às noites de inverno.

As Quatro Irmãs eram a essência da existência. Elas não apenas observavam de longe; elas sentiam a pulsação de cada criatura viva e o sussurro de cada árvore. Elas nos ensinaram que proteger os humanos era a forma mais alta de manter o equilíbrio do mundo. Por eras incontáveis, fomos chamados de protetores, guias e deuses vivos. A harmonia não era um sonho ou um ideal, era a realidade concreta forjada pelo poder delas e pelo nosso respeito aos povos que floresciam.

Mas o tempo é o veneno da memória mortal, e a gratidão humana costuma apodrecer conforme as gerações se sucedem. Eles começaram a esquecer que a fartura de suas colheitas e a segurança de seus muros vinham do nosso sopro, e não apenas do suor de seus corpos. A semente da traição foi plantada no silêncio dos conselhos reais, onde o medo do que é superior começou a sussurrar mentiras. O homem, em sua pequena estatura, passou a acreditar que nós éramos os invasores de seu próprio destino.

Tudo mudou com o surgimento daquele que chamamos de O Primeiro. Ele não era apenas um homem de espada em punho, mas um ladrão de segredos que agia sob o manto da curiosidade. Enquanto nós o víamos como um simples observador inofensivo, ele nos dissecava com um olhar frio e analítico. Ele foi o primeiro humano a compreender que o ato de conhecer poderia ser transformado na arma mais letal de todas. Ele não nos temia como deuses; ele nos catalogava como se fôssemos gado ou presas.

O “conhecer” dele tornou-se a lâmina que cortou o véu da nossa segurança. Quando ele executou a primeira de nossa linhagem usando seus estudos sobre nossas fraquezas, a mancha de sangue mudou a história para sempre. Ele provou aos seus seguidores que o divino podia sangrar e que a eternidade tinha brechas. O saber dele espalhou-se como uma praga silenciosa, e de repente, cada segredo que havíamos compartilhado com os humanos tornou-se uma ferramenta eficiente para nos abater no escuro.

Nós não caímos em silêncio e não aceitamos a audácia humana com resignação. A resposta foi o fogo, o rugido e a tempestade. Quando a guerra começou, nós mostramos aos homens por que um dia fomos chamados de senhores da criação. Cidades inteiras foram devoradas pela terra e rios ficaram vermelhos com o sangue dos transgressores. Lutamos ferozmente para defender o que as Irmãs haviam construído, mas percebemos, com amargura, que a inocência daquele mundo antigo havia morrido para sempre.

A guerra não foi vencida por eles através da força, mas abandonada por nós por causa da estratégia. Percebemos que continuar visíveis era dar aos caçadores exatamente o que eles desejavam: um alvo constante para suas obsessões. As Quatro Irmãs tornaram-se memórias de uma era de ouro que não voltaria mais enquanto o homem governasse. Para preservar o que restava da nossa espécie, escolhemos o exílio tático. Deixamos que os tempos virassem escombros para que as ruínas servissem de lição.

Não fomos para as sombras por medo ou fraqueza, mas por uma consciência superior da nova ordem das coisas. Ao sumirmos de sua vista, retiramos dos caçadores aquilo que eles realmente possuíam: a certeza do alvo. Deixamos que a humanidade acreditasse na própria vitória enquanto nos tornávamos a própria escuridão que os vigiava. O mundo visível tornou-se o palco barulhento dos homens, mas as rédeas do destino continuaram em nossas mãos, escondidas sob a pele do mistério.

Hoje, nós os vemos caminhar em suas cidades de pedra e metal, orgulhosos de uma soberania que é apenas uma ilusão. Eles esqueceram as faces das Quatro Irmãs e tratam a nossa existência como uma mancha que acreditam ter apagado da história. Mal sabem eles que cada passo que dão em solo “conquistado” é monitorado por olhos antigos. Nós controlamos os rastros que deixamos e permitimos que vivam apenas enquanto isso nos convém. O silêncio que mantemos é o preço da sobrevivência deles.

A paciência dos antigos é longa como as eras, mas ela não deve ser confundida com complacência. Sustentamos o equilíbrio do mundo enquanto ele serve aos nossos propósitos, mas a memória da traição é uma chama eterna. Se a humanidade ousar cruzar o último limite, não haverá novas Irmãs para interceder por eles. Quando formos vistos novamente, eles lembrarão que o conhecimento que usaram como arma era apenas uma gota no oceano do nosso verdadeiro poder.

Próximo Capítulo

Arco 1 — Hemrys, o Fugitivo do Limbo

A primeira fissura foi aberta. E aquilo que escapou trouxe o Limbo consigo.